Do Trabalhador ao Consumidor: A Nova Servidão


Entre as décadas de 1950 e 1970, em países como Estados Unidos e Europa, o trabalhador ocupava o centro da sociedade. Empregos estáveis, sindicatos fortes, escolas públicas de qualidade, saúde acessível e universidades baratas eram frutos de uma organização social que reconhecia um fato simples: quem cria valor é o trabalhador. O dinheiro, por si só, apenas circula; é o trabalho vivo que produz riqueza.
Mas a partir dos anos 80, uma “revolta da elite” mudou o eixo civilizatório. Em nome do livre mercado, o trabalhador deixou de ser a referência central e deu lugar ao dinheiro como medida suprema. Dessa virada emergiu uma nova identidade social: deixamos de ser trabalhadores solidários e nos tornamos consumidores competitivos.

Quando nos identificamos como trabalhadores, cultivamos solidariedade — afinal, partilhamos a mesma luta. Mas quando nos reconhecemos como consumidores, o que nasce é a competição: status, prestígio e ostentação. O consumo não é apenas um ato de compra, é um modo de subjetivação. Ele nos ensina a olhar o outro não como aliado, mas como rival de vitrine. O capital deixa de medir apenas objetos e passa a medir pessoas.
O resultado é devastador: solidariedade vira comparação, comunidade se transforma em vitrine, política reduz-se a cálculo de mercado. E o mais perverso é que muitos celebram essa lógica como se fosse liberdade. Se o escravo antigo sabia que era escravo, o consumidor contemporâneo acredita ser livre enquanto reforça suas próprias correntes. O neoliberalismo, nesse sentido, não é só uma política econômica — é um projeto cultural: a escravidão aperfeiçoada.

Eis a provocação: se isso é o “fim da história”, como quis Fukuyama, o fim é para quem? Para as elites, que concentram poder e riqueza, ou para nós, que corremos atrás de prestígio em redes sociais, confundindo consumo com emancipação?

A resposta que se impõe é clara: precisamos reverter a lógica. Reconstruir a identidade coletiva não como consumidores isolados, mas como trabalhadores e cidadãos conscientes. Isso significa revalorizar sindicatos, recuperar o sentido público da educação e da saúde, e sobretudo, resgatar a política como espaço de solidariedade e não de competição. A liberdade não está em comprar mais, mas em poder viver com dignidade, compartilhar lutas e construir juntos uma sociedade menos desigual.

Se a escravidão do consumo é o destino que nos vendem, cabe a nós recusar a compra — e escolher outro caminho.

João Carlos Fazano Sciarini, advogado, especialista em Direito Previdenciário e Social, escritor e filosofo nas melhores horas.